Comunidades Eclesiais de Base (CEBs)

   

As comunidades Eclesiais de Base surgiram para criar e fomentar o espírito cristão de amor a Deus e ao próximo tendo como característica de sua identidade – como o próprio nome indica - a Eclesialidade. Nas palavras de João Paulo II, “sua base é de caráter nitidamente eclesial e não meramente sociológico ou outro”.1 Assim, elas “brotam e desenvolvem-se no interior da Igreja, são solidárias com a vida da mesma Igreja, alimentadas pela sua doutrina e conservam-se unidas aos seus pastores” (EN, n.58).

A partir de uma análise das iniciativas pioneiras do Movimento de Natal, pode-se constatar que os fundamentos das conhecidas Comunidades de Base, crescente nos anos 50 e 60, já estavam presentes nos fins da década de 40. Naquela época, os padres Eugenio Sales e Nivaldo Monte, ambos assistentes espirituais da Juventude Masculina Católica e Juventude Feminina Católica, respectivamente, desenvolviam uma vasta atividade nos bairros da periferia da cidade de Natal.2 Com o auxílio de dezenas de leigos desses grupos, a preocupação principal, segundo Dom Eugenio, era a de “instalar núcleos de evangelização que fossem também núcleos de irradiação religiosa”.3

A mesma preocupação da cidade se relacionava ao meio rural, ou seja, o primeiro passo situou-se no plano religioso, mas, depois, voltou-se para os problemas sociais do campo. Essa idéia se concretizou com a fundação do S.A.R. (Serviço de Assistência Rural) em 1949. “Desde o início, a equipe que atuava junto ao ‘binômio escola-paróquia’, procurou estimular e auxiliar os vigários e seus auxiliares a elaborar planos tanto de ação social como de ação pastoral (...). Visou não só treinar pessoal para o trabalho social, mas, também formar apóstolos para o desempenho de uma missão ao mesmo tempo religiosa e temporal. Destes treinamentos, surgiram os primeiros líderes do movimento social nas comunidades do interior e os missionários leigos”. O primeiro treinamento de líderes foi realizado em janeiro de 1952 e sua abordagem girava em torno dos temas: família, escola, paróquia, comunidade.4

Em seu livro “Homenagem ao Pastor”, sobre a vida e a obra de Dom Eugenio Sales, Monsenhor Raimundo Meneses Brasil descreve o testemunho de Dom Nivaldo Monte sobre o trabalho desenvolvido: A criação das Comunidades Eclesiais de Base, na periferia de Natal, precedeu a outras atividades quando “rapazes e moças da JFC e JMC, com a autorização de Dom Eugenio, realizavam serviços naquela época permitidos pela Igreja, junto a localidades de difícil acesso, ficando ao Sacerdote apenas o Ministério do Sacramento da Penitência e o da Celebração Eucarística. Estes agentes pastorais Leigos, prévia e cuidadosamente treinados, recebiam formação que incluía normas de vida interior, direção espiritual mensal, assiduidade aos sacramentos, adoração ao Santíssimo Sacramento e devoção ao Terço”.

Duas ações marcaram a evolução das Comunidades de Base na Diocese de Natal: a realizada em São Paulo do Potengi e as “Escolas Radiofônicas”.


 

São Paulo do Potengi

Ainda na década de 50, destaca-se a cidade de São Paulo do Potengi, interior do Rio Grande do Norte, com suas inúmeras iniciativas. Tendo à frente seu zeloso pároco, Monsenhor Expedito, a paróquia desencadeou um processo de ação com avanços significativos relacionados à conquista de direitos, participação laical e organização coletiva. Suas práticas pastorais acarretaram uma projeção mundial. Ressalte-se que Monsenhor Expedito foi um dos membros do grupo liderado por Dom Eugenio que se reunia para planejar ações que culminaram no Movimento de Natal.

Naquela paróquia, um dos grandes pontos de atuação da Igreja era o Centro Social, fundado em 1952. A partir dele, muitas ações religiosas e sociais se concretizaram e outras foram implantadas.

O caso do Centro Social, cita Alceu Ferrari, “mostra tanto o fato de sua influência, quanto o da evolução havida. Inicialmente o Centro desenvolvia atividades de ordem religiosa, como a promoção de cursos de catequese e, entre seus Departamentos, não faltava o da Defesa da Fé e da Moral. Os cursos de catequese passaram logo para o Secretariado Paroquial de Pastoral (...). Na medida em que a Paróquia organizou seu Setor de Pastoral, as obras e atividades passaram a gozar de maior autonomia com relação aos objetivos especificamente religiosos”.

Monsenhor Expedito contava, em sua paróquia, com aproximadamente 150 líderes engajados em atividades apostólicas e colocava em prática a dinâmica dos padres Eugenio e Nivaldo nos fins dos anos 40 e do S.A.R.: a de constituir na paróquia “núcleos ou comunidades de leigos que, sob a coordenação de um animador especialmente formado, cultivassem a sua vida cristã através da oração, culto dominical, leitura da Bíblia, reflexão, apoio mútuo e solidariedade (...). A experiência iniciada em São Paulo do Potengi foi transplantada para outros pontos do país e do exterior, principalmente para as zonas rurais. É o que escreve Dom Estevão Bettencourt ao referir-se à respectiva paróquia como lugar de origem das experiências de Comunidades Eclesiais Base.5

Monsenhor Brasil recorda as palavras de Dom Nivaldo a esse respeito: “Lideres preparados, atentos às exigências do Apostolado, em plena atividade, experimentavam ainda mais a agradável sensação ao constatar que os visitantes reconheciam ali existir uma Igreja mais familiar e mais atuante, sempre pronta a enfrentar todos os desafios, comuns à Região e ao nosso Brasil”.6

 

As Escolas Radiofônicas

A idéia da utilização do rádio para programas de educação de base das populações rurais data de 1948, mas, somente em 1958 foi concedida ao S.A.R. a autorização para a obtenção de um canal. No dia 10 de agosto do mesmo ano foram organizadas as chamadas “Escolas Radiofônicas”, dando-se início à primeira experiência de educação pelo rádio.7

O papel das escolas radiofônicas para a alfabetização e formação da comunidade foi fundamental além de se tornarem “veículos de educação e conscientização, sementes de Igreja”. Segundo Pe. Marins, “um esforço de resposta efetiva da Igreja, como comunidade comprometida com o homem e suas lutas (...). Então se catequizava pelo rádio. Aos domingos as comunidades se reuniam em torno do aparelho de rádio para responder à missa que o bispo celebrava e para escutar a sua palavra (...).8

Em 1960, por exemplo, o Centro Social de São Paulo do Potengi colocou 62 rádios cativos em capelas e fazendas da paróquia atingindo cerca de 700 alunos. No ano seguinte, 121 novos aparelhos foram levados para outras regiões. Um Convênio assinado entre a Presidência da República e a CNBB, em 1961, fundou o Movimento de Educação de Base (MEB) e estendeu a experiência a outras áreas do Brasil.

Este modelo de educação de base levou à formação de pequenas comunidades e “constituíam uma rede fundamental de promoção humana e de evangelização. Eram comunidades que se evangelizavam e eram evangelizadoras. Em 1963 eram 1.410 escolas radiofônicas na Diocese de Natal”.9

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) abordou o assunto no Plano de Emergência aprovado na V Assembléia Ordinária (1962). O texto afirmava: “Urge vitalizar de dinamizar nossas paróquias tornando-as instrumentos aptos a responder à premência das circunstâncias e da realidade em que nos encontramos”. Um dos caminhos propostos era fazer da paróquia “uma comunidade de fé, de culto e de caridade”.10

No posterior Plano de Pastoral de Conjunto (1966): “Faz-se urgente (...) suscitar e dinamizar, dentro do território paroquial, ‘comunidades de base’ onde os cristãos (...) sintam-se acolhidos e responsáveis, e delas façam parte integrante, em comunhão de vida com Cristo e com todos os seus irmãos”.11

A II Conferência do Episcopado Latino Americano em Medellín (1968) tratou do tema denominando a comunidade de base como “o primeiro e fundamental núcleo eclesial, que deve, em seu próprio nível, responsabilizar-se pela riqueza e expansão da fé, como também pelo culto que é sua expressão. É, portanto, célula inicial de estruturação eclesial e foco de evangelização e fator primordial de promoção humana e desenvolvimento”.12

No decorrer do Sínodo dos Bispos de 1974, as comunidades de base foram objeto de atenção e na Exortação Apostólica Pós-Sinodal, “Evangelii Nuntiandi”, dedicou-se um parágrafo significativo no qual estão elencadas as características e condições para corresponderem à sua vocação fundamental de ouvintes, destinatárias e anunciadoras do Evangelho. Deverão atuar, portanto, como “lugar de evangelização; esperança para a Igreja, à medida que procurem o seu alimento na Palavra de Deus e não na polarização política ou ideologias; ligadas à Igreja local e à universal; em comunhão com os Pastores que o Senhor dá à sua Igreja e como o Magistério; sem se considerarem únicas destinatárias, agentes ou depositárias do Evangelho e progredindo na consciência do zelo, aplicação, irradiação e dever missionário”.13

“Na sua experiência já amadurecida, as CEBs querem ser Igreja como o Concílio Vaticano II desejou: uma Igreja toda ministerial a serviço do Reino de Deus”.14


 


 


 

[1]JOÃO PAULO II, Mensagem aos líderes das Comunidades de Base no Brasil, 1980, n.3.< http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/messages/pont_messages/1980/documents/hf_jp-ii_mes_1980810_comunita-base-brasile_po.html>. Acesso em: 2 de maio de 2010.

[2]FERRARI, Alceu, Igreja e Desenvolvimento – O Movimento de Natal, Natal, Fundação José Augusto, 1968, p.60-63.

[3]FERRARI, Alceu, Igreja e Desenvolvimento – O Movimento de Natal, Natal, Fundação José Augusto, 1968, p.222

[4]FERRARI, Alceu, Igreja e Desenvolvimento – O Movimento de Natal, Natal, Fundação José Augusto, 1968, 79; 236s.

[5]Estevão, Bettencourt, Revista “Pergunte e Responderemos”, 251/1980 pp. 461-468

[6]Menezes Brasil, R., Homenagem ao Pastor: cinqüenta anos de serviço à Igreja, RJ, Forense, 1996, p. 102

[7]FERRARI, Alceu, Igreja e Desenvolvimento – O Movimento de Natal, Natal, Fundação José Augusto, 1968, p. 85

[8]MARINS, JOSÉ, Revista “Concilium” 1975/4, p.408.

[9]Idem.

[10]CNBB, Plano de Emergência, n.2, 1962.

[11]CNBB, Plano de Pastoral de Conjunto, 1966.

[12]MEDELLÍN, Pastoral de Conjunto, 11.

[13]PAULO VI, Exortação Apostólica Pós-sinodal “Evangelii Nuntiandi”, n.58

[14]CNBB, Mensagem sobre as CEBs, 48ª Assembleia Geral, 2010